O Evangelho é um mistério que só pode ser revelado pelo Espírito Santo. Portanto, só podemos assimilar em nosso espírito. São verdades que contrariam a lógica humana. Uma das facetas do evangelho que nos impactam profundamente é a graça de Deus. Do ponto de vista humano toda injustiça exige punição, mas Deus fez o contrário, em lugar de punição nos deu bênção. O padrão de justiça dEle soa injusta para nós!
Somos salvos pela graça (Efésios 2:8-9). É uma dádiva, um dom, um presente de Deus. Nenhum ser humano poderia se salvar, porquanto não há justiça alguma nele. O pecado nos condenou à morte, mas o dom gratuito é a vida eterna (Romanos 6:23).
A palavra “graça” no grego é charis; e uma das suas definições é “aquilo que proporciona alegria, prazer, deleite, doçura, encanto, beleza”. Deus não quer que soframos a dor das consequências do pecado, por isso Jesus veio remover a raiz dessa dor, o pecado. Nada pode nos proporcionar maior alegria do que a salvação da alma, a paz interior, que excede todo entendimento. A humanidade busca a felicidade, mas da forma errada. Deus nos oferece a verdadeira felicidade, a vida plena (João 10:10).
Paulo escreve: “... Mas onde aumentou o pecado, transbordou a graça” (Romanos 5:20). Quanto mais consciência de pecado maior é a revelação e a manifestação da graça. A proposta do evangelho é morrer para o pecado para que a graça entre em operação! (Romanos 6:1-2).
A receita da felicidade
Existe, então, uma condição. O presente, o dom da graça da salvação, já foi disponibilizado, mas precisamos recebê-lo. Trata-se de uma renúncia dos nossos padrões de pensamentos mundanos contrários ao Evangelho. Na lógica do Reino de Deus quem perde tudo, recebe tudo. A condição para ganhar é perder. Perder o quê? Perder o orgulho de achar que podemos ser felizes sem Deus! Foi sobre isso que Jesus falou no Sermão do Monte (Mateus 5:3-12). No grego, a palavra para “bem-aventurado” é makarios, que significa “abençoado”, “feliz”.
Os pobres [humildes] de espírito. São felizes porque deles é o Reino dos céus. É sobre reconhecer a própria fraqueza e a dependência de Deus, em contraste com a filosofia humanista e a psicologia positiva que diz: “você pode”, “você consegue”, “use o poder da sua mente”. A felicidade e a bênção, segundo Jesus, vêm da humildade e submissão.
Os que choram. Não são felizes porque choram, mas porque serão consolados. Não se trata de choro de autocomiseração, ou de sofrimento como consequência do pecado, mas pela consciência do pecado. Essa condição atrai a graça porque nos faz entender que a verdadeira alegria pode surgir da vulnerabilidade e da busca por Deus em tempos difíceis.
Os mansos. São felizes, porque receberão a terra por herança. A palavra “manso” traduzida do grego, implica uma atitude de humildade e gentileza, não agressiva, que não se exalta, mas tem o controle sobre as emoções e reações. Herdar a terra é uma referência à terra prometida, que significa a plenitude de Deus.
Os que têm fome e sede de justiça. São felizes porque serão satisfeitos. É sobre uma busca contínua e intensa como fome, não de bens materiais, mas da justiça que vem de Deus e se manifesta em conformidade com a Sua vontade. A palavra “justiça” é também “retidão”, é a justiça de Deus em contraste com a justiça própria, que não pode nos salvar.
Os misericordiosos. São felizes porque obterão misericórdia. O contrário da misericórdia é o egoísmo, o orgulho e o desprezo, o que denuncia a nossa natureza caída. A compaixão para com o próximo atrai a compaixão divina. A misericórdia que mostramos aos outros é um reflexo da misericórdia que recebemos de Deus.
Os puros de coração. Estes verão a Deus. A pureza interior, que proporciona o acesso à comunhão divina, depende de uma transformação radical operada pela graça, não de rituais externos. A felicidade suprema pertence àqueles cujo coração foi limpo do pecado e da hipocrisia, pois estes podem experimentar uma intimidade real com Deus.
Os pacificadores. Estes serão chamados filhos de Deus. Filhos têm o DNA do Pai. Nosso Deus é de paz. Jesus é chamado de “Príncipe da paz”. A ideia de pacificadores implica uma proatividade na criação e promoção da paz. São aqueles que, movidos pelo amor e justiça de Deus, atuam como mediadores em situações de discórdia e divisões.
Os perseguidos. São felizes porque deles é o Reino dos céus. Trata-se de uma felicidade que transcende a vida terrena e reflete a aprovação divina. Os que sofrem perseguição dão sinais de que estão vivendo de forma contrária à proposta deste mundo.
Não devemos estranhar a oposição. Fomos nós que nos levantamos contra o sistema. Se somos hostilizados é sinal de que estamos no caminho certo. Devemos nos alegrar em vez de ficar tristes e desolados, porque nossa postura firme e leal ao Reino e sua justiça trará recompensa, tanto aqui mesmo na terra, quanto na eternidade futura.
Enfim, toda essa lista nos desafia a renunciar à própria justiça. A graça entra em operação num coração humilde, que reconhece sua fraqueza e pecaminosidade. Esse favor imerecido só pode se manifestar naquele que reconhece que precisa, e não no coração orgulhoso e cheio de autossuficiência. “... Mas onde aumentou o pecado, transbordou a graça” (Romanos 5:20).